Monday, February 12, 2007

Somos o que cagamos; e uns outros devaneios sobre a crueldade

Esta semana eu me deparei com um artigo do magnífico Vargas Lhosa na revista Piauí. Ele versa sobre como os esgotos de um povo pode denunciar seu nível de desenvolvimento, tudo isso baseado no mais recente relatório das Nações Unidas sobre o saneamento básico.

Eu que pensava que cruel era a situação de favelas brasileiras onde a tubulação de esgoto das casas desagua em valas descobertas acabei descobrindo que em muitos lugares do mundo as pessoas nem ao menos sabem o que é uma privada.

Enquanto lia o tal artigo eu olhava assim meio de relance para um jornal com uma foto dos assalantes que cruelmente assassinaram um menino de 6 anos para roubar um carro; Lembrei-me também de história de genocídio no continente africano, muitas delas patrocinadas por grandes nações.

Começo a pensar, o que é crueldade?
Crueldade são pessoas morrerem de fome ou cólera pois vivem em meio a esgotos?
Crueldade são pessoas morrerem por serem diferentes?
Crueldade são pessoas morrerem por pela ganância alheia?
Quem são mais curéis, os assasinos de uma criança ou as cabeças "pensantes" responsáveis pelo massacre de centenas de milhares?

Alguma resposta por favor!

1 comment:

Luis Hipolito said...

Não há respostas para o Brasil que temos hoje. É preciso apenas sobreviver. Veja o artigo abaixo (saiu na coluna do Cláudio Humberto).


Até o próximo João

Adriana Vandoni (*)

O bárbaro assassinato do menino João no Rio de Janeiro representa, simbolicamente, a morte de uma nação que forja ser uma nação. Forja segurança, forja seriedade. No Brasil até o caráter é forjado. As idéias são voláteis, a caridade é interesseira. Forja-se postura política, e políticas públicas são meros artifícios para beneficiar interesses individuais. E nós, de tanto forjar que acreditamos, ainda vamos assistir os muitos Joãos brasileiros sendo arrastados e esfolados até a morte.

Arrastada está sendo a nossa fé de que um dia será melhor. Não haverá nunca a manhã em que acordaremos em um país mais justo e digno enquanto ainda forjarmos estar escandalizados.

A polícia forja que prende, a comissão de direitos humanos forja que defende os direitos dos humanos, o Estado forja que toma uma atitude e nós forjamos indignação, quando na verdade fomentamos apenas a contemporização. Até atingir alguém do nosso círculo.

Somos cúmplices a partir do momento em que, acomodados, outorgamos a um Estado moralmente falido e viciado toda a responsabilidade pelas nossas necessidades básicas.

A justiça no Brasil é exercida por justiceiros com a conivência do Estado. Sempre foi assim, porque a política se alimenta da miséria e da desgraça da população. O Estado fecha os olhos para o crime, porque não compensa gastar “cacife” com ações estruturais. Políticas sociais são confundidas com caridade e cada vez mais o poder do criminoso sai de controle, e quando isso acontece, o próprio Estado estimula a criação de milícias, que no passado já foram Serviço de Diligências Especiais, Esquadrão da Morte, Scuderie Le Cocq, Invernada de Olaria e vários outros apelidos, mas que nada mais são que o próprio Estado legitimando a ilegalidade. Essas organizações forjam um perfil moralista de manutenção da ordem pública e de defesa da sociedade contra os elementos indesejáveis. O Estado forja coibir e a população forja acreditar que está em segurança.

Não há meios de combater ou deter a estrutura criminosa no País seguindo as Leis. A coisa chegou a tal ponto que o Estado necessita de milícias, como a do Rio, para enfrentar o crime. Como explicar que a Milícia carioca ocupa o morro e expulsa os traficantes? Por que as milícias, compostas por policiais, ex-policiais e bombeiros são capazes de ocupar o morro e expulsar os traficantes? Por que não o Estado? Simplesmente porque agem à margem da lei e dos direitos humanos, eles agem como se traficantes fossem. O Estado não pode agir assim, mas incentiva a proliferação dessas milícias, mesmo forjando combater, e nós, mais uma vez, forjamos acreditar.

Sim, o crime é mais organizado que o Estado, e conseguiu isso porque tem a cumplicidade do político que não tem interesse em combatê-lo. O Estado não dá certo, não é organizado e nunca será enquanto não conquistar a cumplicidade do político. Roubar de uma quadrilha é punição certa, muitas vezes com sentenças de morte. Roubar do Estado é garantia de sucesso. Poucos vêem que o Estado somos nós, seqüestrados, reféns e coniventes. O brasileiro parece sofrer da Síndrome de Estocolmo. Desenvolvemos uma relação de paixão e dependência pelos que nos seqüestram, roubam e matam.

Em poucos dias ou semanas o menino João será esquecido e ficaremos a espera do próximo João ou quem sabe Maria, que terá que morrer de forma mais cruel e monstruosa, do contrário, nem impacto provocará.


(*) Adriana Vandoni - é economista, especialista em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas/RJ.

E-mail: avandoni@gmail.com
Blog: www.argumentoeprosa.blogspot.com